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A análise dos afetos está a passar do divã para o
laboratório
Crianças adotadas melhoram a cognição e as maltratadas registam diferenças
no desenvolvimento do cérebro. Nunca se soube tanto sobre os mecanismos
biológicos alterados pela relação entre pais e filhos. E ainda é só o
início.
POR ISABEL NERY
Sempre se disse que o amor
move montanhas, mas nunca como agora foram medidas as consequências biológicas
das vivências emocionais. Os afetos — ou a falta deles — alteram as funções
cerebrais.
Os avanços da biologia, da química e da imagiologia permitiram medir e
intervir. Como no caso dos estudos com oxitocina em autistas, realizados
nos Estados Unidos. Um simples spray nasal desta hormona leva as crianças
com dificuldade de ler sinais sociais a olharem para os outros,
estabelecendo ligações normalmente impossíveis
O amor ou a extinção
O estudo das crianças adotadas tornou-se um dos maiores aliados dos
investigadores que procuram respostas para os problemas de desenvolvimento
e perturbações afetivas. As más experiências emocionais, sempre presentes
nestes casos, deixam marcas — visíveis em máquinas de ressonância ou
tomografia axial.
Talvez mais surpreendente do que a marca física do
trauma seja a mudança biológica determinada pelo amor - depois da adoção.
As vantagens podem ser medidas em ressonâncias magnéticas, que mostram o
desenvolvimento cerebral e as zonas ativadas antes e depois. A criança
adotada cresce fisicamente. Até a cabeça fica maior. E a cognição também
melhora io% a i% .
Embora entenda que a adoção é vantajosa em
qualquer idade, a psicóloga holandesa defende a necessidade de agilizar os
processos para que se reduza ao máximo o vazio afetivo. Numa família
equilibrada, ao choro do bebé responde-se com atenção. O organismo
estabiliza, baixam os níveis de cortisol. Se, pelo contrário, à agitação
corresponde um vazio ou uma reação agressiva, o bebé não normaliza os
níveis hormonais. A falta de afeto leva a duas reações para regularas
emoções: ouse fecham, num comportamento de tipo autista, ou são
hiperativos, reagindo a tudo o que acontece à volta. Em ambos os casos, há
um excesso de hormona de stresse no organismo. Acontece a todos os humanos
mas, nas crianças negligenciadas, esse nível hormonal está sempre elevado.
E deixa marcas.
Genes e lambidelas
Depois do nascimento, a história continua. A oxitocina, essencial ao parto,
é também a hormona que dita a primeira ligação mãe-filho. Sem ela pode
mesmo haver rejeição. Mas mais importante ainda, os níveis de oxitocina e,
por consequência, o grau de felicidade e vinculações, também se alteram com
as experiências de vida.
Estudos com mulheres abusadas ou negligenciadas em crianças mostram que,
quando adultas, têm níveis mais baixos de oxitocina do que as não abusadas
— Amor, Sexo e a Ciência da Atração.
A oxitocina é essencial na produção de leite e na contração do útero, mas
também na sensação de que aquele bebé é o mais especial do mundo.
Já se sabia que o afeto tinha implicações no comportamento, mas os dados
produzidos pelas neurociências permitiram perceber os mecanismos por detrás
das ligações emocionais entre pais e filhos, e como eles interferem no
desenvolvimento fisiológico. Não restam dúvidas, diz o neurocientista:
- O amor pode mudar o cérebro.
Os genes continuam a ser atores importantes no futuro de cada ser humano,
mas a ciência valoriza cada vez mais a epigenética a que sofre alterações
com o ambiente e as vivências sociais
"Adicted lo love"
A adição é outra pista cada vez mais seguida no estudo da biologia dos
comportamentos. Pode parecer chocante, mas o consumo de heroína e o prazer
sentido na troca de atos entre pais e filhos ativam os mesmos processos
biológicos. A substância neuro-hormonal provocada pela heroína é semelhante
à produzida na brincadeira entre pais e filhos. São moléculas que encaixam
nos mesmos recetores, embora a droga produza maiores quantidades de
hormona.
Se olharmos durante 30 minutos para um bebé, a dopamina
(hormona do prazer) aumenta e sentimo-nos bem.
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